Depois do fim

(ou uma breve exposição do processo)

[…] escrever, pra mim, é uma das experiências mais difíceis (Elvira Vigna, 2015).

Começar talvez seja difícil porque todo começo pressupõe um fim, mesmo que ainda distante. E demoro para começar porque, como a narradora de Por escrito, tenho essa vontade de que não acabem, as coisas, quando acabam. Então encerro com “[…] uma história em que uma história é contada. Não é bem uma metalinguagem. É  apenas  uma  exposição  do  processo  […]”(1).

Leio Por escrito pela primeira vez no final de 2017, poucos meses depois da morte de Vigna. Naquele ano de tantas perdas também para mim, eu buscava na ficção um encontro, um diálogo. E penso que talvez o fim, esse que demoro a aceitar, sequer exista. Afinal não existe também começo: a pesquisa começa muito antes do início do mestrado. 

Em 2018, depois de ter lido toda a obra de Vigna, um segundo encontro fundamental: com os textos da geógrafa britânica e feminista Doreen Massey, para quem o espaço é um produto de inter-relações, esfera da possibilidade da multiplicidade e sempre em processo de devir. Na concepção dela, o espaço nunca está finalizado e permanece aberto à adição de camadas, construídas ao longo do tempo e por cada um de nós. Como um processo de escrita. Como um processo de pesquisa. Escrevo o projeto inicial em 2019, e minha primeira tentativa de entrar na obra acontece pela análise do espaço.

Em 2020, inicio formalmente o mestrado. E o que era um início logo passou a ser também uma série de fins. A pandemia. O isolamento social. Minha mãe doente, os dias passados com ela em um hospital. A morte da minha mãe. O luto. E eu, também, doente, muito mais frágil, tentando abrir mão de qualquer rigidez ou defesa, qualquer controle, tentando voltar ao começo, ao “antes”, a este processo. E demorei, nessa volta, eu também caminhando em espirais, sem conseguir voltar a qualquer que fosse o ponto inicial.

Se minha primeira leitura de Por escrito foi envolvida pelas análises espaçotemporais, o trauma e a memória logo se impuseram. Vou aos poucos entendendo as desestabilizações que Vigna propõe em toda a obra. Em uma aula da Andrea, na pós-graduação da USP, faço anotações que ainda não sei que serão a minha possibilidade de ir, o movimento perdido.

[Anotação 1: uma busca que se inicia com deslocamentos pelo espaço, mas que só se concretiza na escrita. Uma escrita que é, também, lugar de memória, lugar de elaboração do trauma. Pensar sobre.]

[Anotação 2: em Por escrito, o ato de narrar surge como possibilidade de lidar com o trauma. Se, antes, a narradora busca em idas e vindas no espaço essa possibilidade, sem encontrá-la de fato e permanecendo presa a ele (ao trauma), a escrita é o que lhe possibilita seguir: não seguir em frente, mas seguir do modo como sabe, escrevendo. A escrita é o movimento dela. A escrita é o meu movimento.]

E volto, então, à escrita, à possibilidade de ficção, às intertextualidades que são diversas em toda a obra. Enquanto escrevo, penso tantas vezes na Elvira escrevendo a obra que eu agora leio e releio sem parar. Ela que, quando escreveu Por escrito, já tratava a doença que a levaria embora algum tempo depois, a mesma doença que ela escreve em Zizi, a mesma doença que vivi no meu corpo enquanto lia e relia e escrevia isto aqui que escrevo. Se a doença era dela, ao escrever não era mais, era de Zizi. E então talvez a gente escreva não para que não acabe, mas apenas para recuperar o movimento, ainda que o movimento pressuponha um fim, e ainda que ninguém veja o tanto que a gente se move antes dele, do fim. 

Em julho de 2022, sonho com a Elvira Vigna pela primeira e única vez, depois de tanto tempo me sentindo tão próxima dela, da escrita dela. No sonho, ela me explica trechos do livro que não entendo, me mostra o que ainda não vi, revela algo de tudo aquilo que me escapa. Acordo, e as palavras fogem. Não sei quais trechos ela me mostra. Não sei quais as palavras do que me explica. Mas agradeço a visita. A presença, ainda que seja essa também uma ausência presente. E acho que é disso, afinal, que vou sentir saudade. “E indo, vou devagarinho, num canto de cena, você nem percebendo na hora, quase sem perceber, comendo, passeando e eu, neste instante mesmo, indo”(2).

(1) VIGNA in NOTARGIACOMO, 2013, p. 257

(2) VIGNA, 2014, p. 308