No cenário da intervenção literária, há uma mesa e duas cadeiras. Em uma delas, está a escritora. Na outra cadeira, vazia, o convite para que as pessoas se sentem. Sobre a mesa, há uma série de envelopes. Todos possuem uma pergunta escrita à mão.
Sentada diante da escritora, cada pessoa é convidada a escolher um envelope contendo uma pergunta sobre o tempo: uma lembrança que insiste, um silêncio herdado, um acontecimento que ainda produz efeitos ou um futuro que se deseja transformar.
Inspirada pela personagem Dora, interpretada por Fernanda Montenegro no filme “Central do Brasil” (1998), a intervenção literária convida o público a responder, oralmente, à pergunta encontrada dentro do envelope. A partir da conversa, a escritora condensa a história em uma micronarrativa literária que não reproduz o relato do participante, mas o recria por meio da linguagem.
A intervenção propõe uma reflexão sobre aquilo que permanece fora das narrativas oficiais, como os silêncios, as lembranças interrompidas, os afetos não nomeados e as histórias que raramente encontram linguagem, aproximando criação literária, performance e escuta sensível.
Ao final da participação, cada pessoa recebe o fragmento de uma carta escrita em tempos passados e previamente reproduzida à mão pela escritora, estabelecendo uma cadeia inesperada de correspondências. Entre os fragmentos de cartas, estão textos de nomes como Ana Cristina Cesar, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, João Guimarães Rosa, Lygia Fagundes Telles e Machado de Assis.

